O entorno de Brasília cresceu mais rápido do que a infraestrutura de saneamento e de gestão hídrica conseguiu acompanhar. Não é novidade — mas o que chama atenção em 2026 é a convergência entre relatos de moradores antigos, dados parciais de agências reguladoras e aprovações municipais de novos loteamentos em áreas de cabeceira de córrego.
Relatos em Luziânia
Na região do Jardim Ingá, a oeste de Luziânia, pelo menos quinze famílias entrevistadas disseram que poços que antes atendiam uso doméstico e pequena irrigação passaram a secar entre março e maio deste ano. “O vizinho vendeu o terreno, veio empresa, terraplenou tudo”, conta Seu Geraldo, 67 anos, que mora na área há três décadas. “Antes a água subia sozinha. Agora preciso de bomba e mesmo assim vem menos.”
A prefeitura de Luziânia informou que “não há registro formal de reclamações sobre poços” no protocolo citado — embora três moradores tenham apresentado à reportagem cópias de ofícios enviados à Secretaria de Meio Ambiente em abril.
Águas Lindas e a Adasa
Em Águas Lindas, o cenário se repete com outra escala: loteamentos aprovados nos últimos dois anos ocupam faixas de vegetação de cerrado que, segundo estudo de 2023 da Adasa (Agência Reguladora de Águas do Distrito Federal), contribuem para a recarga superficial do sistema hidrogeológico que abastece parte da bacia do Descoberto.
Enviamos à Adasa quinze perguntas sobre licenciamento cruzado com municípios goianos. A agência respondeu parcialmente em 18 dias, afirmando que “competências de licenciamento urbano são municipais” e anexando mapa de áreas de proteção — sem detalhar quantas solicitações de empreendimento foram objeto de parecer técnico nos últimos doze meses.
“Moramos aqui porque havia água e mata. Se os dois acabam, sobra só o asfalto.” — Dona Maria, associação de moradores em Águas Lindas
O que falta nos dados
Não existe, hoje, painel público integrado que una aprovações de loteamento nos municípios goianos do entorno com monitoramento de poços ou níveis de rios. O SNIRH (Sistema Nacional de Informações sobre Recursos Hídricos) registra poços cadastrados, mas a atualização depende de envio voluntário dos proprietários.
Especialistas ouvidos — entre eles a hidróloga Dra. Camila Azevedo, da UnB — alertam que a perda de cobertura vegetal em áreas de recarga não aparece imediatamente nas medições de vazão, o que pode atrasar resposta política. “O déficit hidráulico é cumulativo”, resume Azevedo.
Fontes: entrevistas presenciais em Luziânia e Águas Lindas (maio de 2026), pedido de informação à Adasa (protocolo 2026-0412), estudo Adasa “Áreas de recarga no entorno do DF” (2023), SNIRH/ANA.