A conversa pública sobre desmatamento no Tocantins costuma girar em torno de números estaduais agregados — percentuais de redução, metas de CAR regularizado, discursos em audiências na Assembleia Legislativa. Mas quando descemos ao nível municipal, o quadro fica menos claro.

Entre janeiro e maio de 2026, cruzamos 847 alertas do Deter (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real do Inpe) com polígonos do Cadastro Ambiental Rural em três municípios do sul do estado. O recorte não cobre o Tocantins inteiro, mas concentra-se numa faixa onde o cerrado ainda predomina e onde a expansão da soja e do gado pressiona matas de galeria.

O que os municípios dizem

Gurupi, a maior cidade da amostra, publicou em abril um relatório de “situação ambiental” afirmando que “não há alertas significativos de desmatamento em área urbana ou periurbana”. O documento não menciona a zona rural — onde, segundo nosso cruzamento, 62% dos alertas do período se concentraram.

Formoso do Araguaia respondeu a um pedido de acesso à informação em 22 dias (o prazo legal é 20). O anexo listava apenas autuações do Iema, sem referência aos polígonos do CAR sobrepostos a alertas. Paraíso do Tocantins não respondeu dentro do prazo; reenviamos o pedido em 28 de maio.

“A gente vê a picada de trator na estrada de terra e depois ouve na rádio que a cidade está preservando tudo.” — Morador de zona rural de Gurupi, entrevistado sob condição de não identificação

Cruzamento de bases

Para cada alerta, verificamos se o polígono do imóvel rural estava com situação “ativo” ou “pendente” no SICAR-Tocantins. Em 38% dos casos, o alerta caiu dentro de propriedade com pendência documental — o que não significa desmatamento ilegal automaticamente, mas indica fragilidade no monitoramento local.

Os maiores clusters apareceram a leste de Gurupi, em área de transição cerrado–mata, e ao longo de corredores de acesso à BR-153. Não identificamos, nesta etapa da apuração, nomes de proprietários ligados a contratos públicos nos três municípios — essa verificação segue em andamento.

Resposta do estado

O Iema informou, por e-mail, que “os alertas do Deter são insumos para fiscalização, não constituem autuação automática”. A nota acrescentou que três equipes de campo foram deslocadas à região sul em maio, sem detalhar quantas propriedades foram vistoriadas.

Fontes: Inpe/Deter (extração em 3 de junho de 2026), SICAR-Tocantins, pedidos de acesso à informação protocolados nas prefeituras de Gurupi, Formoso do Araguaia e Paraíso do Tocantins.